quarta-feira, 23 de abril de 2014

Do amor

eu nasci com o movimento. meu pai e minha mãe se amavam tanto que eles precisavam se movimentar juntos, um no corpo do outro, para mostrar um para o outro como era o seu amor. foi assim que eles me fizeram... e eu fui crescendo dentro de um lugar quentinho e confortável... um dia eu fiquei tão grande que o movimento que eu fazia dentro da minha mamãe começou a doer ela. ela até caiu da rede com a dor e eu senti doer em mim. lá já tava tão pequeno... e eu não conseguia mais parar de mexer. foi indo assim pequenininho até ficar maior e mamãe começar a mexer junto comigo. o movimento tomou conta de nós duas e quando percebi tava num lugar gelado... eu senti falta do calor da minha mamãe... comecei a chorar, chorei tanto que me colocaram no peito dela pra acalmar. ela acabou dormindo cansada e me levaram pra dormir em outro lugar.

estávamos bêbados. saímos de uma festa e fomos pra outra, uma que era só nossa, tinha até um dj só pra gente. dançamos juntos um monte de música. ele no ritmo dele, eu no meu, a gente tentando se encaixar. eu recebia o corpo dele com cuidado e assim dava meu corpo aos poucos... recebendo. ele querendo mais do que qualquer coisa, eu tranquila, querendo descobrir através com os detalhes... nos descobrimos. um assertivo e outro que escapa sem escapar, de leve, pra ver se a corda encorda. essa foi a segunda vez que nos conhecemos, estávamos vestidos. na primeira só nossas palavras e sons se conheceram... mais as minhas do que as dele, eu buscava muito e tinha pressa. na terceira nossos pés e mãos dançavam tímidos embaixo d'água, se encontrando. na quarta nosso corpo todo dançou depois de um filme, embalado por música de banda e pela nossa própria partitura.  

quarta-feira, 26 de março de 2014

Comida da alma

a coisa mais bonita de um livro
é que as palavras não cabem
ele por si só é um objeto sem sentido
que recebe os efeitos do tempo

é preciso que alguém abra
passe as páginas com cuidado
e dê instantes de sua vida
para o paleio se animar

           ...

dentro da cabeça
as coisas moram
adormem acordam
e se alimentam

Antropofagia

a traça é um bichinho que gosta tanto de livro
que come suas palavras e páginas
tentando guardar
as histórias

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014